quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Gestão Cultural / especialização

Esta é uma entrevista do excelente blog Acesso, que se auto-denomina-se "Blog da diversidade cultural":



Maria Helena Cunha: Gestão cultural mais profissionalizada e especializada
Por Blog Acesso

Em 1999, a gestora cultural Maria Helena Cunha percebeu que a área onde atuava já não era a mesma. Ela tinha evoluído e exigia mais preparo, planejamento e especialização de seus profissionais.
Foi por isso que, no mesmo ano, inaugurou em sociedade com o pesquisador Luiz Fernandes Assis a DUO Informação e Cultura. Localizada em Belo Horizonte, capital mineira, hoje a empresa é referência nas áreas de consultoria, planejamento e de gestão para instituições e iniciativas culturais, educacionais e sociais.
De lá para cá, a DUO investe cada vez mais em educação. Atualmente, oferece cursos presenciais e a distância, palestras e seminários voltados para a capacitação dos profissionais que atuam no campo da cultura. Outro passo foi a criação da DUO Editorial, editora especializada em publicação e vendas de referências bibliográficas da área.
Em uma conversa sobre sua história profissional e da empresa, Maria Helena, que é graduada em História pela UFMG, mestre em educação pela mesma universidade e especialista em Planejamento e Gestão Cultural pelo Instituto de Educação Continuada da PUC/MG, dá ao blog Acesso sua visão e uma breve análise do cenário da gestão cultural no Brasil de hoje.

Blog Acesso – Por que, em 1999, você sentiu a necessidade de criar uma empresa especializada em gestão cultural? Conte-nos, por favor, um pouco da história da DUO.

Maria Helena Cunha – Em 1999 a gente já vivia em um ambiente muito mais profissional. Eu tinha experiência com ONGs e na área pública e senti a necessidade de atuar em outros setores, de organizar melhor o meu trabalho. Eu já tinha feito uma especialização em Planejamento e Gestão Cultural e precisava direcionar o meu trabalho. Eu e meu sócio Luiz Fernandes de Assis fizemos então um plano de negócios para a empresa, para entender onde nos iríamos atuar no mercado. Desde o início tínhamos a preocupação com a profissionalização do setor, com a capacitação, com o planejamento e também já pensávamos na questão editorial. Em 2003, juntou-se a nós a gestora cultural Marcela Bertelli e continuamos nosso trabalho focado na formação, no planejamento e na gestão de projetos. Há dois anos abrimos a DUO editorial, para disponibilizar uma bibliografia específica e complementar parte da formação. Desde 2005, investimos em Educação a Distância (EAD). Em agosto, a DUO comemora 10 anos. De lá pra cá, houve um grande amadurecimento da empresa e do próprio setor.
BA – De lá para cá, o que você acha que mais mudou na forma de gerir cultura no Brasil?
MHC – Prestando atenção nesses 10 anos, o que mais mudou é a preocupação com a profissionalização da forma de atuar na área da cultural, preocupação de trabalhar com informações mais objetivas, mais concretas. E isso não acontece somente com quem é profissional da área. Você vê o governo federal e estadual, por exemplo, baseando-se em várias pesquisas para desenvolver projetos, com o objetivo de ter mais e melhores informações sobre o campo cultural. Eu acredito que há muita necessidade de se especializar e os mais novos já procuram uma formação deste tipo para entrar no campo de trabalho. Globalmente, percebemos também que o campo está mais complexo devido ao próprio amadurecimento do setor. A discussão da cultura está mais sofisticada, especialmente nessa área da gestão.
BA – Como é a preocupação dos gestores culturais no sentido de garantir cada vez mais acesso à cultura por todos, especialmente pelos mais jovens? Há bastante mobilização?
MHC – Eu tenho participado de vários seminários e cursos no Brasil, e esse tema é muito recorrente. Há vários pontos sobre o acesso para se discutir. Primeiro tem a questão da educação, da busca pelo conhecimento. Quando uma pessoa tem conhecimento, tem direito a ter escolha. Não é possível, hoje, discutir acesso à cultura sem antes falar do acesso à educação. Veja, por exemplo, os museus brasileiros. Atualmente, a maioria coloca como prioridade o processo educativo dentro deles. Isto significa trabalhar com professores e fazer com que essas crianças e jovens passem a frequentar museus com uma outra perspectiva, mais atual, contemporânea, e que saibam o significado da visita a um museu. Nos cursos da DUO vemos muito esta discussão. Preocupados em gerir uma política pública ou não, você discute o acesso, e, ao mesmo tempo, falamos também da outra ponta da linha, que é a da construção de público.
BA – Qual a principal diferença que você vê, nos dias de hoje e no Brasil, entre a gestão cultural praticada pela esfera pública (municipal, estadual e federal), a privada e a do terceiro setor?
MHC – Na área pública especialmente há ainda alguns municípios muito fora desse processo todo. Por outro lado, já estados avançados, como os de Minas Gerais e Bahia, por exemplo, que avançaram na comunicação com o público de suas cidades, conscientes da diferença que existe entre os outros municípios e a capital. Nos últimos oito anos, a esfera pública federal começou a discutir mais políticas públicas na área cultural. Eles deixaram de falar somente de leis de incentivo para falar, por exemplo, dos pontos de cultura, que atuam tanto no âmbito federal, estadual, municipal e até no terceiro setor. A partir do momento em que o setor público investe na área, o setor privado também acredita naquele setor. Dentro dessa perspectiva, a visão da área privada amadureceu a forma de investir em cultura. Ainda estamos longe do ideal, mas vemos uma profissionalização na forma de atuação do setor privado, seja por meio da criação de áreas específicas para investir em cultura, seja na preocupação em criar uma política de investimento cultural. São ainda poucas as empresas que tem investido nessa área, mas houve um grande avanço. A mesma coisa vale para o terceiro setor, que passa a acompanhar esse processo. Estão todos caminhando juntos, até porque são três áreas que atuam com proximidade.
BA – Quais ainda são as maiores dificuldades que os gestores culturais enfrentam para aprimorar o seu trabalho?
MHC – São várias coisas. A primeira questão é básica, é a de recursos. Ainda é difícil conseguir atuar continuamente, realizar um trabalho que não dependa exclusivamente de recursos pontuais e anuais. Outro problema é a falta de instrumentos e ferramentas específicas na área da cultura, como ter informações mais concretas por meio de pesquisas. O IBGE, por exemplo, tem realizado algumas e disponibilizado. É impressionante o gás que isso dá. E há também a falta de bibliografia específica. Na produção cultural até há, mas na área de gestão, do direito cultural, ainda falta opções de leitura acadêmica.
BA – A DUO investe em capacitação e aplica cursos a distância. Por que investir nesta modalidade?
MHC – Não é uma questão de substituição. São duas modalidades importantes, uma não substitui a outra, mas são metodologias diferentes. Em 2005, quando pensamos na possibilidade de um curso a distância, pensamos na dimensão do Brasil e queríamos atingir um número maior de pessoas. Nos primeiros cursos que fizemos com esta modalidade, as primeiras pessoas a se inscrever eram do Nordeste. Quando se coloca também a questão do tempo que as pessoas têm para o aprimoramento, esse curso traz a possibilidade do estudo coletivo, em rede e de fazer uma troca nacional. Os alunos interagem, criam um bloco de discussão além do curso, para dar continuidade ao debate. Desde o início nos preocupamos em fazer uma plataforma simples e interativa. O curso a distância também está relacionado a questão do acesso. Ele faz parte do processo de democratização e é algo muito importante quando pensamos no alcance desses cursos, que permitem experiências maravilhosas, inclusive a de inclusão digital.


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comentarios
Marco Brazil disse:
24 de agosto de 2009 às 11:34
Então, o que há de novo na captação de recursos, nada. A verba publica que pode ser utilizada pela lei Rouannet continua desde ontem, hoje e me parece que sempre nas mãos de meia dúzia. Na esfera Federal, Estadual e Municipal como há muita gente empregada e é preciso mostrar serviço inventam reuniões a toda hora. Cultura pra cá, cultura pra lá e nada.Isso ao observar o encaminhamento das coisas a mais de vinte anos. Ao se pensar em produzir cultura é necessário saber se haverá recursos e onde encontrá-los. Os editais para produção e execução de espetáculos estão viciados. Se discordarem sugiro averiguar as pautas dos principais teatros do pais e certificar quem esta utilizando o rico dinheirinho do povo brasileiro, se não são os mesmo aqui e acolá. Anuncie que será suspensa “ temporariamente” a lei Rouannet para estudo e acertos, para ver se essa meia dúzia não pega um aviãozinho e de óculos escuros sobem a rampa do planalto com ares de artistas. Mexe no dinheiro deles, faz pra ver! O resto é conversa fiada.

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